A história (ainda por contar) do Jipe DKW Candango nas Forças Armadas

 CANDANGO MILITAR              

A fotografia ao lado provocou um profícuo debate entre os membros do grupo "Candangueiros" sobre os motivos pela  não utilização do Candango no Exercito Brasileiro (EB).

Um documento que poderia elucidar a questão seria algum eventual "relatorio de teste" do EB sobre as provas que o Jipe DKW tenha sido submetido.

Não temos acesso a esse documento e nem sabemos se existe, original ou cópia.

É uma história ainda a ser contada.

Temos apenas fragmentos, lembranças e depoimentos orais.

Um quebra-cabeça histórico que ainda falta muito por concluir.

Eis o que temos:

AZe: Como foram feitos os testes e onde está o Relatório das provas de homologação do Jipe DKW que foi feito nas Forças Armadas/Exército?


FGA: Candango militar no Brasil só existiu um. Que foi doado para o Exército pela Vemag para teste. A última vez que soube dele, acabou-se no quartel de Quirauna. O CCa sabe bem da história deste veículo pois ele dirigiu várias vezes o veículo quando estava no quartel.
AZe: Recebi uma informação que muitos arquivos foram transferidos para um quartel no interior de SP (nao sei aonde), onde se perderam devido a um incêndio. Confere?
AZe: O objetivo nao é encontrar o veículo mas algum relatório ou documento oficial sobre os testes, que deveriam existir em algum arquivo.
FGA: O CCa sabe toda a história do Jipe. Ele era preto, ficava em São Paulo e foi reprovado por não conseguir puxar a carreta em quarta marcha. Foi leiloado e acabou-se numa oficina. As pontas de eixo estão hoje no Candango dele.


CCa: Pessoal boa tarde, o Candango que está atrás do soldado pertencia ao quartel general da II Região Militar, situada à rua Conselheiro Brotero na Barra Funda, SP, Capital. Eu servi no Quartel General do II Exército, trabalhava lá. Esse Candango normalmente vinha em nosso quartel e trazia o general comandante daquele quartel para reuniões. Ele era pintado na cor preta. Por muito curioso que seja, após muito tempo, talvez pelo início dos anos 70, foi a leilão e um amigo meu comprou. Levou o jipe a uma oficina e a mesma ficou fechada até o início dos anos 80 por decisão da Justiça. Quando a oficina foi liberada, esse Candango estava totalmente irrecuperável, então esse amigo meu desmontou o mesmo. Por essa ocasião comprei dele as pontas de eixo dianteiras e as cruzetas que estão montadas no meu Candango. Pelo que sei no II Exército somente esse veículo existiu.
CCa: Para continuar a história, em 1982 fui visitar a usina Santa Elisa em Sertãozinho, como representante da Mercedes-Benz e tive a oportunidade de conhecer o Coronel que participou dos testes no campo de Gericinó e o que o Fábio relata, foi o que eu ouvi. Por outro lado, na época, nossas forças armadas já tinham definido, desde o advento do Jeep em 42, como padrão deste tipo de viatura.
AZe: Legal, então a historia que temos é a seguinte: apesar da decisão (escrita?) das Forças Armadas de adotar veiculos da marca "Jeep" como padrão para aquisição de seus veiculos de 1/2 ton, a Vemag entregou ("doou") um "Candango" (provavelmente Jipe DKW) para testes (quando?). Os testes foram realizados no Campo do Gericinó (Rio de Janeiro) e o Candango foi reprovado por não conseguir puxar uma carreta em 4a marcha, segundo relato verbal do Coronel que participou dos testes em Gericino. Este Candango, de cor preta, foi então usado regularmente no quartel general da II Região Militar, situada a rua Conselheiro Brotero na Barra Funda, SP, Capital. Após ser leiloado, permaneceu décadas trancado numa oficina onde se deteriorou irrecuperavelmente. Segundo fontes do II Exercito, foi o unico exemplar de jipe Candango que tiveram.

AZe: O fato é que, com um nome, novas possibilidades de investigação se abrem para chegarmos ao relatório de testes. Sabemos o local (Gericinó) e um nome que esteve diretamente envolvido nos testes. Dá pra correr atrás.
CCa: Meus amigos, costumo dizer que, para virar documento, tem que estar escrito, então convido os pesquisadores para ver se isso, se tem algum documento. Eu perguntei e o Cel me deu essa informação, será que foi verdadeira?
AZe: Perfeito, CCa, este sempre foi o objetivo: descobrir se alguma cópia do Relatório de Testes (ou qualquer outro nome) do Candango no EB ainda existe. Trabalhamos com a hipótese que qualquer veículo posto a prova pelo EB tenha um relatório no fim dos testes. Isso deve ter sido feito para o Candango, com certeza.


AZe: A Vemag deve ter feito uma alta aposta nisso, confiar no mercado militar. Inclusive em outras forças além do EB. O falecido irmão do Roberto Mencarini me disse que tinha visto Candangos na Marinha (Fuzileiros Navais). Como apaixonado por Candango claro que agradeço o "erro estratégico" da Vemag em produzi-lo no Brasil. Mas sob o ponto de vista historico-empresarial, onde está o erro? Qual o fator que nao foi levado em consideração (ou menosprezado) que acabou levando à interrupção da fabricação? Ninguém entra numa prova decisiva sem ter treinado antes. Os protocolos de teste do EB para esse tipo de veículo deviam ser conhecidos! A Vemag nao simulou previamente puxar uma carretinha em 4a marcha? Vejam que seria razoável iniciar a homologação do Jipe DKW até antes do início de produção, com protótipos ou pre-serie. Sabemos que 7 veículos foram "produzidos" em 1957 e temos uma foto com vários Mungas perfilados na frente da Vemag. Acreditaram cegamente que um jipe aprovado pelo novo exército alemão passaria em qualquer teste aqui no Brasil? Nao acredito, tem caroço nesse angu! Se o mercado militar sempre foi o objetivo da Vemag com o Jipe DKW, ela deve ter se preparado MUITO para isso. Na imprensa da época, há menção de encontros com JK (em 1955!) onde se informa que um jipe DKW seria produzido no País e até reportagens sobre visitas a fábrica de delegações militares. Minha aposta é num fator subjetivo e político que nao foi percebido pela Vemag, ou seja, uma "resistência natural" dos militares brasileiros em abandonar um "padrão" de jipe que estavam acostumados, o Jeep americano, que a FEB viu em ação 10 anos antes na Itália. Isto é, a idéia fixa de que "jipe só havia um, o Jeep".
EvE: Será que essa história da carretinha é verdadeira? Do fim da década de 50 meu pai constituiu um comércio de móveis e equipamentos para escritório. Comprou também um Sítio em Suzano. Entre 1958 e 1970 ele teve três Vemaguets, uma Caiçara e três Candangos, um deles com Capota de Aço. Todos eles puxavam carretinhas, inclusive levando cofres! Até as Vemaguets puxaram carretinhas, inclusive lembro de um episódio com a Vemaguet 63, eu era bem pequeno. Estávamos indo para São Roque fazer uma entrega e a carretinha escapou do engate na serra , desceu e parou do Barranco. Meu pai voltou de ré, engatou de novo a carreta e subiu a Serra normalmente. Por isso causa estranheza a história. O Candango com 4x4 e reduzida, pra não conseguir puxar uma carreta em 4a? Não sei não...

AZe: EvE, acredito que a história narrada aqui é verdadeira. História no sentido de fatos aparentes que realmente aconteceram. O problema é o que está "por trás" da história. Se havia uma preferência histórica pelo Jeep, que obviamente nao poderia ser publicamente revelada, como arrumar um pretexto para eliminar possíveis concorrentes? Nessas horas, encontram-se "pêlo em ovo" e a lupa é posta a funcionar. Daí a importância de chegarmos até o relatório de teste, não para encontrar uma "armação" explicita, mas para ver como foi construído o "pêlo".


CCa: Acontece que, no exército brasileiro, nem o Land Rover teve chance, conheci um único exemplar do quartel de Campo Grande no MS em meados dos anos 60. Para os caminhões o padrão era também americano para os 4 x4 e os 6 x 6, até a Mercedes entrar em 1960, com o LAP 321, mesmo assim somente a partir do LA 1111, que vendeu um pouco mais na substituição dos GMC da 2a Guerra, e nesse entre período vieram os REOs que duraram muito tempo. O Munga veio para o Brasil porque, na época, poucas regiões tinham estradas para veículos 4x2. Quando chovia, o deslocamento era mais fácil com os 4 x4. Vejam os números de Willys, Toyota e Candango para uso civil que foram vendidos.

CCa: Acontece que, no exército brasileiro, nem o Land Rover teve chance, conheci um único exemplar do quartel de Campo Grande no MS em meados dos anos 60. Para os caminhões o padrão era também americano para os 4 x4 e os 6 x 6, até a Mercedes entrar em 1960, com o LAP 321, mesmo assim somente a partir do LA 1111, que vendeu um pouco mais na substituição dos GMC da 2a Guerra, e nesse entre período vieram os REOs que duraram muito tempo. O Munga veio para o Brasil porque, na época, poucas regiões tinham estradas para veículos 4x2. Quando chovia, o deslocamento era mais fácil com os 4 x4. Vejam os números de Willys, Toyota e Candango para uso civil que foram vendidos.

AZe: Na pagina sobre o Munga no livro "Veicoli Militari nel Mondo", de Christopher F. Foss (versão traduzida do livro "Military Vehicles of the World", publicado na Inglaterra em 1976) diz que o veiculo teve emprego nas seguintes forças: Exército francês (estacionado na Alemanha), Alemanha, Grã-Bretanha (Exército Britânico do Reno e guarnição de Berlim), Indonésia e Holanda. No texto diz que o Munga 4 e o Munga 8 podem rebocar um trailer ("rimorchietto") de 500 Kg enquanto o Munga 6 um trailer de 750 Kg. Diz tambem que o Munga 6 podia ser equipado com tomada de força no motor. Acho que esta lista, no entanto, não é exaustiva. Vi num fasciculo da "Historia do Sex XX" uma foto de soldados israelenses sobre um jipe Munga na Guerra dos seis Dias (1967), portanto tambem deve ter sido empregado no exercito israelense. 

 

RFr: Nosso amigo PS, historiador automobilístico, autor de vários livros sobre o automobilismo brasileiro, me disse que teve notícias de que houve um Candango num quartel do Exército em Valença ou proximidades. Nunca tive oportunidade de conferir a informação.

CCa: O galão de combustível ficava acima do para-choque traseiro esquerdo, sem tapar a visão da lanterna. Ele ficava em um suporte dentro do para-choque, pelo menos foi o que eu conheci naquele Candango preto do Exército.

CCa: Mais um detalhe, o Candango custava mais que um Willys e também do Toyota Bandeirante. Tirando o motor, a caixa de câmbio, o cardan e o diferencial traseiro eram importados, o que sem dúvida encarecia o produto e justificava as baixas vendas. Vejam a lista de preços publicada nesta 4Rodas de 1962.


AZe: A gente sabia que o Candango era mais caro que o Willys mas esquece de quanto! Pela tabela, o Toyota ficava 28% acima do preço do Jeep e o Candango incríveis 36% !!!
   
  AZe: Dei uma olhada na produção no período de 57 a 63 e o Jeep Willys nadava de braçada, tinha 94% do mercado, o Candango 5% e o Toyota 1% (lembrando que não foi produzido entre 60-61 devido à alteração do produto). Grosso modo, Jeep com 160 mil unidades produzidas, Candango com 8 mil e Toyota com 2 mil. Não tinha como não dar certo.

Produto caro no mercado civil e "bloqueado" no militar... 
LCM: Prezados e estimados amigos, enquanto não conseguimos mais detalhes sobre a atuaçao do Candango no Exercito Brasileiro, vai uma fotinha do meu 58 caracterizado. 

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